Ofuscado por si mesmo

* Foi publicada, na revista Conhecimento Prático Literatura nº 27, uma matéria minha sobre Fernando Sabino. Aí vão alguns trechos da matéria, que não está disponível na internet. Portanto, se puderem, comprem e divulguem a revista! (Rafael Rodrigues)

Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, Sabino começou a carreira literária muito cedo, aos treze anos de idade, quando teve publicado um conto na revista Argus, da polícia de Minas Gerais. No livro “O tabuleiro de damas”, esboço autobiográfico de Sabino – como ele mesmo costumava dizer –, o escritor mineiro conta que, estimulado por uma irmã, começou a participar do concurso de crônicas de uma revista do Rio de Janeiro, a Carioca. Depois, começou a participar do concurso de contos promovido pela mesma revista, e foi também premiado pelas ficções curtas. Era tão comum ganhar os concursos – que eram semanais – que Sabino passou a “receber o dinheiro adiantado do representante da revista em Belo Horizonte”.

E foi no conto e na crônica que Sabino conquistou mais leitores. Suas crônicas – a maioria delas bem-humoradas e divertidas, mas há também as sérias e críticas – e seus contos fantasiosos, inusitados e engraçados – não há como não falar de “O homem nu”, adaptado duas vezes para o cinema, e de “Macacos me mordam” – têm um alcance muito maior que seus romances e novelas. Mas é inegável que, não obstante a qualidade e a popularidade de seus contos, foi com as crônicas engraçadas, com os casos que só ele conseguia contar (escrever) que o escritor mineiro mais se destacou – até porque foi o gênero que mais praticou durante toda a carreira.

(…)

O primeiro livro publicado de Fernando Sabino foi de contos, “Os grilos não cantam mais”, em 1941, aos dezoito anos de idade. Já o segundo foi uma novela, “A marca”, em 1944, elogiadíssima na época – e ainda hoje. Depois deles vieram “A cidade vazia” (1950, crônicas) e “A vida real” (1952, composto por três novelas). Somente em 1956 é que “O encontro marcado” seria publicado. Daí para a publicação de “O grande mentecapto”, seu segundo romance, se passariam 23 anos. Sendo que o livro teve parte de seu material escrito em 1946. Sabino conta em “O tabuleiro de damas” como tudo aconteceu:

“Num domingo de 1979, mexendo no meu arquivo, encontrei as cinqüenta e poucas páginas que havia escrito sobre Viramundo [protagonista do livro], já amareladas pelo tempo. Tomei-me de brios e entrei num transe tão maluco como os de meu personagem. Comecei a escrever dia e noite sem parar, terminei o livro em dezoito dias, em meio a crises de riso e de choro”.

“O menino no espelho”, o terceiro romance, teve mais sorte e foi publicado em 1982, apenas três anos depois do anterior. Em 2004, alguns meses antes da morte de Fernando Sabino, veio à luz “Os movimentos simulados”, romance que o autor havia escrito em 1946 – um ano produtivo para o autor, percebe-se – e que foi útil durante a realização de “O encontro marcado”, mas que havia sido deixado de lado, guardado em alguma gaveta. Nos últimos anos de sua vida, ao fazer o inventário de sua obra, Sabino reencontrou o livro “perdido” e decidiu publicá-lo, mantendo a linguagem original, “meio rebarbativa, sem escanhoá-la”, diz o autor na nota introdutória do livro, que completa, portanto, o quarteto que forma a obra romanesca de Fernando.

Obra essa que foi ofuscada, justamente, pelas crônicas. Hoje, talvez apenas “O encontro marcado” tenha ainda um grande apelo, que infelizmente parece nem ser mais tão grande assim. Os outros romances, apesar de ainda lidos e comentados, não têm a atenção que merecem. Jorge Amado considerava, por exemplo, “O menino no espelho” como sendo uma obra-prima (em “Navegação de cabotagem”, o escritor baiano revela que é este o livro de Sabino que mais gosta). Nele, Sabino narra sua infância com toques de realismo fantástico, de fábula: ele voa num pedaço de bambu, se torna agente secreto, é campeão mineiro de futebol pelo América – fazendo o gol do título, contra o Atlético –, entre outras façanhas.

Os romances de Fernando Sabino têm características centrais muito marcantes e que de certa forma norteiam toda a sua obra. Em “O encontro marcado”, romance de formação que marcou não apenas uma, mas várias gerações, as crises existenciais de Eduardo Marciano, o protagonista, são o norte do livro; em “O menino no espelho” se destaca a inventividade característica de Sabino, sempre presente nos seus textos, mas que é mais contundente neste; a família e o cotidiano são os temas centrais de “Os movimentos simulados”; mas “O grande mentecapto”, que este ano completa trinta anos de vida, é certamente o romance que mais facilmente pode resumir – se é que isso é possível – a obra de Fernando Sabino: nele encontramos um personagem angustiado, engraçado mas ao mesmo tempo triste, que perambula por várias cidades do estado de Minas Gerais fazendo as maiores trapalhadas e tendo os mais diversos dissabores e sofrimentos.

Para gostar de ler Fernando Sabino

* Caco Belmonte, gaúcho de Porto Alegre, é jornalista e escritor. Autor do livro de contos “No Orkut dos outros é colírio“, mantém o blog “O Exu Literato“, tem contos publicados em várias antologias e no momento escreve sua primeira novela, cujo título é “Segunda-feira”. O texto abaixo foi publicado originalmente no blog do autor e reproduzido aqui com sua autorização.

Em dezembro de 1991, passei no vestibular do curso de jornalismo da PUCRS e fui selecionado na Oficina de Criação Literária do Instituto de Letras e Artes da mesma universidade. Faz quase 18 anos. Eu tinha 19 anos e meus pais estavam de férias no Rio. De lá, após receberem a dupla notícia, trouxeram de presente “Os melhores contos de Fernando Sabino”, de quem eu já era leitor e fã.

Tenho o livro a meu lado agora, enquanto escrevo estas linhas. Na verdade, cresci lendo o Sabino. Era recorrente na biblioteca dos meus pais, e depois fiquei com todos os livros para mim. Aliás, se não estou enganado, o primeiro contato com a obra do autor foram as crônicas da coleção “Para gostar de ler”, da Editora Ática. Meu irmão, quatro anos mais velho, teve de fazer a leitura da obra como tarefa da escola. E eu aproveitei a oportunidade para fazer minhas primeiras incursões em “leituras de adulto”. Outra leitura que marcou meus primeiros passos foi “O menino no espelho”, da mesma forma que “O menino grapiúna”, de Jorge Amado, e “Menino de engenho”, de José Lins do Rego. Hoje, tenho quase todos os livros do Sabino.

O cara é um dos meus mestres, pela simplicidade da linguagem e a escolha do cotidiano como temática principal. Sabia valorizar a palavra, era econômico e nos seus textos não sobrava absolutamente nada. Além disso, fazia uso inteligente do diálogo direto. Usava na medida certa, sempre que possível entremeado por ações e breves descrições. E não era exibido, nem fazia malabarismo com a palavra. Era preto no branco.

Passados cinco anos ele ainda faz falta, e sempre fará. Ao menos o vazio e a ausência terminam quando releio a obra de Fernando Sabino. Escritor, jornalista, nasceu homem dia 12 de outubro de 1923, e morreu menino naquele dia 11 de outubro de 2004*. Quando eu partir, é dele um dos primeiros autógrafos que pedirei lá em cima.

* Por coincidência, 11 de outubro é a mesma data em que morreu Renato Russo, em 1996.

Da interrupção, um caminho novo

* João Paulo Cuenca, carioca, é escritor e jornalista, colunista de O Globo e blogueiro do Globo Online. Além de autor dos romances “Corpo presente” e “O dia Mastroianni”, é um dos escritores participantes do projeto literário Amores Expressos, no qual vários autores passam um mês em uma determinada cidade do mundo e, com base nessa experiência, escrevem uma história de amor. JP Cuenca foi para Tóquio, e seu livro é um dos mais aguardados do projeto. O texto abaixo, republicado aqui com autorização do autor, foi publicado originalmente em 16 de outubro de 2004, no Jornal do Brasil.

O que ia fazer ali na hora do recreio, ninguém entendia. Nem os amigos mais próximos, nem as namoradinhas. Muito menos a freira que tomava conta da biblioteca. No início, o garoto era acanhado. Depois, ganhou intimidade com alguns autores que escolhia com curiosidade e sem recomendação. Mesmo podendo levá-los para casa, gastava tempo por ali, adiantando algumas páginas para eleger qual deles leria até o fim. Pelas largas janelas chegava o som longínquo da bagunça dos outros alunos, como se fizessem parte de outra vida.

Não eram só os livros que o atraíam à biblioteca. Ia sempre que estava aborrecido. Querendo ficar só. Podia ser uma paixão platônica por uma colega ou pela professora de matemática. Uma briga com amigos. Outra em casa, onde fazia birra e chorava, dizendo-se independente. E olha que a coisa já tinha sido mais feia. Quando menor, era uma criança de rompantes inacreditáveis. Comum dar com a cabeça na parede. Dizer que ia fugir e não voltar. Perguntava o tempo todo: por que isso, por que aquilo? Dizia que ia casar com a professora. Inventava moda. Brincava sozinho. Criava jogos que ninguém mais entendia. Não teriam como.

Cresceu um pouco, mas a sensação de isolamento continuou, apesar de já cultivar algumas amizades que durariam décadas. Mas, se as férias pareciam um intervalo gigantesco na sua vida, o que dizer de um ano ou dez? Quando pensava que um dia ficaria velho como seus pais, a professora ou a senhora que o observava com ar assoberbado entre os livros, uma onda de sentimentos contraditórios vinha à tona. Planejava ser astronauta, ator, milionário, espião, bombeiro, jogador de futebol e diretor de cinema. Entre as cem vidas que podemos escolher, gostava de pensar que poderia viver todas. Mas, no instante seguinte, recuava mil passos. E então, era como se não pudesse viver nem a sua.

Muitas vezes o desgosto que o levava à biblioteca era maior do que simplesmente orgulho ferido. Algo que atravessava todo o resto e que ele não sabia explicar. Um olhar triste de nostalgia precoce, encarando a fresta de tempo por onde lhe escapava a alma. Até os momentos mais alegres vinham acompanhados de certa melancolia. Nessas horas, via-se em desvantagem em relação ao resto do mundo. Não encontrava cumplicidade em lugar algum. Era um menino de angústias infinitas.

A Irmã Laura tentava lhe podar as leituras. De início, com algum sucesso. Achava que alguns livros o garoto só poderia ler no segundo grau. Implicava com ele. Que estranho era alguém amolar quem só queria ler livros! O que poderia haver de tão importante em um moleque lendo um livro? E principalmente aquele livro, que ela considerava tão impróprio? Eu não tinha mais do que doze anos quando surrupiei “O encontro marcado” da biblioteca do Colégio Sion, no Cosme Velho.

Do Fernando Sabino, já havia lido praticamente tudo, os volumes de crônicas (como muitos, fui apresentado ao Sabino pela série “Para gostar de ler”) e seus outros romances (“O menino no espelho” e “O grande mentecapto”, com destaque). Era seu fã confesso e solitário, entre colegas que não ligavam muito para livros. Essa relação ganhou outras tintas depois que li o ”Encontro”. Sabino, a esta altura amigo íntimo, me deu as palavras que eu ainda não conhecia para definir e explicar a angústia que eu puxava sem saber. Não apenas me deu palavras, mas me acompanhou por anos. Já não me sentia ilhado naquele sentimento. Havia Eduardo Marciano, e havia eu. Que, de forma torta, fui me vendo cada vez mais naquele livro, em cada vez que o relia, em todo ano que o reli.

Quando soube da morte do Fernando, depois da tristeza e de um porre de oito horas, amanheci pensando que nunca havia lhe agradecido. Tímido ou receoso, nunca tentei entrar em contato, nem por fax ou carta. O máximo que fiz foi, alguns meses atrás, lhe enviar uma cópia do meu primeiro romance com uma dedicatória onde eu também me dizia ser um Marciano. Hoje vejo como fui sem graça. Afinal, como agradecer a alguém que lhe deu o norte na vida? Se antes eu pensava em cem caminhos, Sabino me apontou o único possível.

Obrigado, Fernando. Você não me deu um nome, mas me ofereceu uma estrela. Eu acreditei, fui buscá-la. Hoje, continuo essa busca. Preciso continuar, mesmo agora que o mundo ficou pior, sem um Fernando escrevendo crônicas, viajando pelo mundo, cercado de amigos, contando histórias, bebendo uísque, tocando bateria, ouvindo jazz, passeando por Ipanema e não atendendo o telefone. Estamos sempre começando. E é preciso continuar, mesmo sabendo que seremos interrompidos. Estamos sempre começando. Antes do fim, e apesar dele, estamos sempre começando. Fico sem jeito de falar, Fernando, mas nos últimos quinze anos, te amei profundamente. Não apenas como se ama um autor, mas como se ama um amigo, um companheiro de todas as horas. Por tudo, como te agradecer, Fernando?

Fernando Sabino, o amigo

* Mauro Ventura, segundo biografia que consta no DizVentura, blog que ele mantém no portal Globo OnLine, é “repórter especial do Segundo Caderno do Globo, onde assina ainda a coluna ‘Dois cafés e a conta’ na Revista O Globo. Filho de Zuenir Ventura, é gente finíssima – como o pai – e nasceu no Rio de Janeiro. Foi um dos grandes amigos de Fernando Sabino durante os últimos anos de vida do escritor mineiro. O texto abaixo é inédito, Mauro Ventura escreveu especialmente para esta homenagem.

Um dia toca o telefone da redação – como vive tocando o telefone da redação. Atendi com a indiferença habitual, imaginando se tratar de um assessor de imprensa, de um leitor ou de alguém solicitando uma informação qualquer. Mas não. Do outro lado da linha estava Fernando Sabino, meu ídolo literário, homem de muitas palavras – na vida particular –, mas de raríssimas declarações – na vida pública. Ele ligava para ver se eu tinha como ajudar um morador de rua que não tinha os dois braços. Havia conversado com o rapaz dias antes, e o encontro deixara-o “comovido de chorar”.

Fernando era assim. Tinha uma frase que gostava de usar: “Quando você tem um problema muito difícil de resolver, comece por resolver o problema dos outros”. Conheci-o em 2001, quando preparava uma capa sobre sua correspondência com Clarice Lispector. Levei tempo tentando entrevistá-lo. Ele se esquivava com a desculpa habitual: “Ah, escreve você, coloca uma palavras bonitas na minha boca…”. Explicava que tudo que tinha a dizer estava em sua obra. Também achava que já tinha dado muitas entrevistas: “Vou ficar me repetindo que nem velhinho gagá?”.

Finalmente consegui falar com ele, graças a muita insistência e à ajuda de um amigo em comum, Marcelo Andrade. A partir dali, tornamo-nos próximos. Quando eu escrevia sobre ele, Fernando retornava com seu exagero e sua generosidade habituais. “Estou de joelhos, esmagado. Você é um esteta. Sofre da proporção do equilíbrio, do bom senso e da harmonia. É a consagração. O texto tem uma delicadeza não açucarada. Fiz uma primeira leitura, com os olhos molhados. Fiz uma segunda leitura, com os olhos enxutos de profissional, e posso dizer: é a coisa mais bonita que já saiu sobre mim”, contou certa vez ao telefone, após uma matéria sobre seus 80 anos.

Uma vez, escreveu-me pedindo autorização para publicar trechos de um texto meu na abertura de seu novo livro, uma “autobiografia não-autorizada”*. Levei um susto e pensei em dizer: “Quando você quer?”. Mas respondi apenas “Claro!”, antes de sair pulando pela casa. Com uma frequência menor do que eu gostaria, falávamos ou almoçávamos – ele gostava de ir ao Alvaro’s, no Leblon. É verdade que depois das críticas que recebeu por “Zélia, uma paixão” restringiu sua vida social. Mas o livro virou uma página menor numa trajetória literária admirável, que teve seu ápice com “O encontro marcado”.

De qualquer maneira, Fernando chateava-se com a fama de recluso. Tinha, explicava, era horror a chatos. Preferia o contato com porteiros, manobristas, mendigos, camelôs – gente comum, tantas vezes transformada em texto. Ao olhar generoso aliava-se um espírito curioso, um humor afiado e um talento extraordinário como cronista. Se nada mais o jornalismo tivesse me dado, bastava-me o privilégio de ter virado amigo de Fernando.

* [Mauro escreveu sobre esta “autobiografia não-autorizada” na edição especial para os 50 anos de “O encontro marcado” do caderno “Prosa&Verso”, do jornal O Globo de 07 de outubro de 2006. O trecho em que ele fala sobre o livro você lê a seguir, e está sendo republicado aqui mediante autorização do autor.]

Sabino deixou prontos cerca de três capítulos do que chamava de “autobiografia não-autorizada por mim mesmo” ou “memórias póstumas antecipadas não autorizadas”. Os originais vão permanecer inéditos, porque em seu testamento ele proíbe qualquer publicação post-mortem. “O que não foi publicado é porque não presta”, justificava.

Em obra inacabada, Eduardo Marciano faz biografia de Sabino
No romance inacabado, ele retoma seu personagem mais famoso, Eduardo Marciano, que agora biografa o próprio Sabino. Num trecho, por exemplo, Marciano diz, a propósito de seu criador: “Prosseguiu, na juventude, com as novelas de ‘A vida real’; na meia-idade, com a sua biografia disfarçada sob meu nome em ‘O encontro marcado’; na maturidade, com a maluquice dele próprio em ‘O grande mentecapto’; na segunda infância, com a criança que gostaria de voltar a ser em ‘O menino no espelho’. Tudo isso entremeado de crônicas, contos e novelas reunidos em livros que lhe asseguram o sustento, pelo menos até hoje.”

Em “O encontro marcado”, Marciano tenta a todo custo realizar seu grande sonho – escrever seu primeiro livro. Não consegue. Sabino, ao contrário, foi bem-sucedido em fazer seu romance de estréia, graças a Marciano. Agora, é como se Marciano finalmente desse o troco e escrevesse sua obra inaugural, à custa de Sabino.

Um depoimento de Zuenir Ventura

* Zuenir Ventura é mineiro de Além Paraíba. Além de escritor, Zuenir é um dos maiores jornalistas brasileiros, sendo autor de obras fundamentais para o melhor entendimento de nossa história recente, como “1968 – O ano que não terminou”, entre outros. O depoimento abaixo foi colhido na Bienal do Livro Bahia deste ano, em Salvador. Gostaria de agradecer publicamente ao Zuenir, que foi extraordinário. Eu não o conhecia, ninguém intermediou nosso contato, e mesmo assim ele nos atendeu com uma atenção incrível, ainda no hotel, antes de sua participação na Bienal. Ele poderia simplesmente não ter respondido ao meu e-mail, mas não: respondeu, se dispôs a conversar conosco e foi de uma gentileza que não tenho como descrever. É necessário também agradecer à Cássia, minha noiva, que vem me apoiando desde muito e sempre, e  que poderia não ter ido comigo a Salvador e ter ficado em casa cuidando de suas obrigações acadêmicas, mas foi comigo e gravou a conversa com o Zuenir. Optei por manter o tom informal da conversa, editando muito pouca coisa, até porque  editar o Zuenir é algo quase impossível de se fazer: ele é mestre não apenas na escrita, mas também na arte de falar. Dito isso, vamos ao que interessa.

Quando o senhor conheceu o Fernando?

Olha, eu conheci o Fernando… primeiro eu conheci nos livros, antes de conhecer pessoalmente. Ele foi um dos escritores importantes da minha vida, sobretudo o livro “O encontro marcado”. “O encontro marcado” é um livro que marcou toda uma geração. Depois o conheci no Rio, não me lembro nem em que circunstância, talvez o entrevistando… Eu fui muito amigo, mais amigo até, no começo, do Hélio Pellegrino, que era um dos quatro cavaleiros do apocalipse, como eles diziam, que era o Fernando Sabino, o Hélio Pellegrino, o Paulo Mendes Campos e o Otto Lara Resende. Eu conheci os quatro, fiquei amigo do Hélio, no começo, do Otto, um pouco, Paulinho é que eu conhecia mais distante – tinha um excelente contato com ele, mas não era, assim, amizade –, e com o Fernando, ultimamente, ficamos realmente muito amigos.

O Hélio, eu fui preso com ele, como você sabe, e ele falava muito dos outros três – e muito do Fernando, claro. Enfim. Quando eu saí, eu me aproximei muito do Fernando, acho que em função até do Hélio, desse convívio com ele na prisão, e aí ficamos muito amigos. Fernando era uma pessoa de uma convivência muito agradável, muito engraçada. Ele tinha aquelas histórias de mineiro, as melhores histórias de mineiro eram dele. Evidentemente ele inventava muitas histórias e apresentava como se fossem histórias recolhidas, mas na verdade eram histórias inventadas por ele. Tem uma do mineiro que eu acho maravilhosa, para definir o mineiro. Pra você ver como o mineiro é tão cauteloso, tão desconfiado… Você chega pro mineiro e diz assim: “vem cá, qual é o seu nome todo?”. Aí o mineiro diz assim: “qual é a parte que você sabe?”. Nem o nome ele confia em dizer! (risos)

O Fernando era assim. Se você convivesse com ele, você ria o tempo todo. E era límpido. Não só escrevia bem, com aquele humor incrível, mas ele pessoalmente era também muito engraçado. Um contador de histórias realmente irresistível.

Ele é um dos melhores cronistas que este país já produziu. E é curioso, porque só como cronista ele teria um lugar na literatura do Brasil, por causa das crônicas dele. Mas esse romance, “O encontro marcado”, é um excelente romance. Um dos melhores romances escritos no Brasil.

O Fernando tinha um olhar para o cotidiano, para as pequenas coisas, sempre com muito humor. Eu digo até que ele, o Fernando, e os cronistas mineiros também, mas sobretudo o Fernando, eles ensinaram a gente, o carioca, a ver – até os cariocas como eu, o mineiro-carioca – ele ensinou o Rio a se ver, a ver as pequenas coisas, os pequenos detalhes… Ele tinha um olhar minucioso. E era curioso, porque ele olhava aquilo e devolvia aquilo de uma maneira saborosa. O Fernando é isso…

Depois meu filho ficou amigo dele. Meu filho ficou muito amigo dele, por entrevista! É engraçado porque desde pequenos os dois, tanto meu filho quanto minha filha, eram leitores dele. Minha filha adorava o Fernando, e ele gostava muito dela. Uma vez o Fernando pegou um ônibus, ele andava muito de ônibus, e foi levar um livro para ela, não sei onde, porque ela estava precisando do livro e tal, e ele foi lá, pessoalmente entregar. Ele tinha essas atenções.

E o Mauro [Ventura, jornalista de “O Globo”], que é jornalista, foi entrevistá-lo, muito comovido, porque conhecia o Fernando de leituras desde pequenininho, e aí ficaram muito amigos, os dois. Ultimamente o grande amigo do Mauro era o Fernando, e o Fernando tinha uma confiança absoluta no Mauro, como jornalista. Fernando era muito ressabiado com a imprensa, ele tinha muito cuidado e tal. E com o Mauro ele se abria, ele tinha a maior confiança… É realmente uma relação muito gostosa essa da família Ventura com o Sabino. E depois fiquei amigo do Bernardo e de uma outra filha do Fernando, a Leonora, no final da vida do Fernando e continuando depois.

Ele é uma pessoa realmente… um daqueles tipos inesquecíveis. Eu frequentemente estou citando o Fernando, esbarrando com histórias, com casos que poderiam ter sido escritos pelo Fernando. Ele tinha esse talento, que é o talento de você ler as histórias do Fernando, os casos do Fernando e você não saber se ele retirou aquilo do cotidiano ou se o cotidiano é que acabou imitando as histórias dele, como aquela definição do mineiro. E outras histórias… Mas esse é o grande talento dele, de retratar com um humor inigualável o dia a dia, os pequenos – aparentemente pequenos – acontecimentos, os insignificantes acontecimentos que no fundo têm muito significado. E esse olhar ele ensinou a nós jornalistas e escritores, a prestar atenção nas pequenas coisas. Nisso ele é realmente insuperável.

O senhor acha que as crônicas dele, o lado cronista dele, ofuscou um pouco a obra romanesca? Porque, por exemplo, “O grande mentecapto” é um livro estupendo, “O menino no espelho” também, e as novelas dele também são muito boas.

É verdade, você tem razão. Eu acho que isso é porque ele era tão bom como cronista, tão conhecido como cronista, que… eu concordo com você. Parece que foi ofuscado o lado romanesco. Eu fiquei falando de “O encontro marcado” porque foi um livro que marcou minha geração, como marcou outras gerações, mas você tem razão, “O grande mentecapto” é um livro extraordinário. Inclusive virou peça, eu vi encenada, vi até com o Fernando uma vez.

Virou filme também – com o Diogo Vilela, se não me engano.

Sim, virou filme, é verdade. Virou peça, com o Marcelo Andrade [diretor de teatro], que é um grande amigo dele, meu amigo também, que fez “O grande mentecapto”… Enfim, é uma obra riquíssima, a obra dele é realmente muito rica. A obra romanesca também, não só o lado cronista. Parece que com o Fernando cronista você esquece que ele tinha outras dimensões, uma dimensão romanesca muito importante, sem dúvida.

Carta para Fernando

Affonso Romano de Sant’Anna, mineiro de Belo Horizonte, é poeta, ensaísta e cronista premiado e reconhecido nacional e internacionalmente. É autor de, entre outros livros, “A cegueira e o saber” e “O enigma vazio”, os quais recomendo veementemente. Foi amigo de Fernando Sabino e, no texto abaixo, relata como foi o velório de Fernando. O texto, republicado aqui com autorização do autor, foi originalmente publicado no jornal O Globo, em 17 de outubro de 2004.

Meu caro:

Imagino que, ao chegar aí, você foi logo recepcionado por Otto, Paulo e Hélio e retomaram não só a conversa como se estivessem num banco da Praça da Liberdade, mas voltaram a fazer aquela antiga algazarra. Imagino também que logo se aproximou o Rubem Braga e, pronto, o bando ficou completo. Quase, faltava o Vinícius, que veio se achegando e dizendo “Saravá!”. E veio Clarice, e veio Drummond, e veio o Nava, e veio Mário de Andrade, e veio uma fila enorme lhe receber. Por essas e por outras é que alguém comentou durante o seu velório (ai! meu Deus! essa palavra não casa de jeito nenhum com vocês!), pois é, alguém disse a respeito de vocês terem ido para o lado de lá, que esse tal de lado de lá está ficando muito mais interessante do que o lado de cá.

Vou lhe revelar uma coisa que aconteceu durante o seu enterro na qual você não prestou atenção, porque já estava na mais legítima e ansiada confraternização com aquela turma. Nunca vi um enterro assim. E olha que tenho visto enterro de tudo quanto é tipo. Foi o seguinte: depois que baixaram seu esquife para a tal de última morada, em vez de as pessoas cumprimentarem seus familiares e se retirarem, de repente, dei-me conta de que continuavam todos ali conversando, num bate-papo interminável, como se estivessem num coquetel que estava apenas começando. Olha, as pessoas não se deram conta, o tempo foi passando e o papo se prolongando. O seu conjunto de jazz já havia tocado a última homenagem – aquele arranjo do “When the saint are marching in”, spiritual com que os negros esperavam entrar cantando no Reino dos Céus; alguém já havia gritado “Viva o Fernando!”, as rezas todas já haviam sido feitas, o corpo já tinha sido encomendado lá na capela, mas as pessoas não arredavam o pé dali. Foi quando eu comentei isto numa roda, e Ziraldo emendou: – A gente deveria era ter trazido um uísque, ao estilo de Fernando, e ficar aqui fazendo piquenique. É isso, Fernando. Não havia aquela sensação mórbida dos enterros em geral. E é claro que isto foi por sua causa. Os filhos estavam ali tristes, até eu chorei quando sua banda começou a tocar, como se fazia nos enterros em New Orleans. Mas havia a noção de que estava tudo redondo, completo, realizado.

E isto não é pouco nem é fácil.

Você vivia repetindo nos últimos anos que estava fazendo a sua “obra póstuma antecipada”. Não falava isto com tristeza. Na verdade, estava conversando com a gente já do lado do lá, e a gente entendia, consentia. E eu achava um luxo você poder ser um Brás Cubas ao pé da letra, mas “avant la mort”. Muitos têm sua vida & obra interrompida abruptamente por um infarto ou acidente, seja na juventude ou no momento mais fértil de sua criatividade. Raríssimos, e você está entre esses, tiveram o privilégio de preparar-se para o fim. Com a maior lisura e dignidade. E a gente consentia nisto.

– Cadê o Fernando, eu perguntava à sua secretária Fabiana ou ao Marcelo Andrade, sua última e confidente amizade. Você tinha desaparecido, alegando que tinha ido para o sítio de algum amigo. Às vezes me confidenciava que estava escrevendo isto ou aquilo, mas que não falasse com ninguém onde estava. As pessoas até reclamavam que você não dava resposta a convites para palestras e nós sabíamos que você estava concentrado no absolutamente essencial, que é o derradeiro encontro consigo mesmo.

Fernando, alguns escritores suscitam nos leitores respeito por sua inteligência, outros admiração por sua coragem estética e política, outros o sentimento de pena e comiseração, enfim, sensações as mais variadas. Você deixou no seu público uma coisa muito rara: uma sensação de fraternidade, de leveza, de que a vida deve ser vivida com humor, pois como dizia seu pai: “no fim tudo dá certo, se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”.

Repórteres estavam nos perguntando, ali no São João Batista, qual era o legado que você havia deixado. Poderia falar horas sobre isto, como nos seminários em que, com os alunos, examinava suas obras, mas me ocorreu uma outra coisa menos acadêmica. Você, Rubem, Otto, Paulo e Hélio constituíam, na literatura, algo que também acontecia na música com a bossa nova. Assim como a música de Tom, Vinicius, Menescal e outros tinha uma leveza, era airosa, descrevia um clima de paz, de bom humor e até de utopia, também vocês eram mais que um bando, quase uma banda que trazia em suas crônicas na “Manchete” afeto, alegria e lirismo. Vocês representaram um tempo em que a gente, quer dizer, o país e o mundo, iam ter futuro, por isto o presente era promissor. Não era como hoje, essa calamidade incontrolável espelhada nessa literatura da violência, da droga, das perversões, nessa atmosfera cinza, decadente profetizada no “Blade runner” e efetivada no “apocalipse now” gerenciado por esse famigerado Bush. Aliás, conversamos algumas vezes sobre isto, você me dizia que estava também horrorizado em como isto se refletia nessa “não arte” que se exibe, e eu acho que isto tudo, ao lado da solidão em que estava com a partida de Otto, Hélio e Paulo, incentivou sua reclusão.

Antes de ir à capela do São João Batista onde seu corpo já nos esperava, uma jovem repórter, que veio aqui em casa, procurando sinceramente orientação, perguntou-me quais eram os seus amigos mais queridos, os quais ela poderia identificar durante o sepultamento. Citei alguns nomes. E quando mais tarde lá cheguei, os fui encontrando já na calçada, depois nos degraus, junto ao caixão. Éramos uma espécie de sobreviventes de uma era, que íamos seguindo pelas alamedas do cemitério. Havia muita gente, mas o grupo de seus amigos mais chegados estava bastante desfalcado. Muitos já foram para o lado de lá.

É, o lado de lá está ficando cada vez mais interessante.

Cinco anos sem Sabino

Hoje faz cinco anos que Fernando Sabino se foi. Lembro muito bem daquele dia. Eu estava prestes a tomar banho para ir trabalhar, quando recebi a notícia. Quando soube, fiquei desolado. Era como se eu tivesse perdido o chão. Pensei até em faltar aquele dia, mas não havia como. E a explicação? Não havia justificativa, não havia como faltar.

Procurei alguma coisa para amarrar no braço, como demonstração de luto, como fazem os jogadores de futebol em situações semelhantes. Não achei e, depois pensei melhor, nem havia necessidade: minha farda era toda preta (eu trabalhava na C&A).

Poucos meses antes eu enviara uma carta a Fernando. A segunda. Como resposta a ambas, recebi um livro com uma pequena dedicatória (a segunda é do dia 10 de março de 2004.) Desde quando havia recebido o primeiro livro, com uma felicidade que não tenho como expressar, pensei em fazer uma visita a Sabino. Conhecer o escritor e o homem que eu tanto admirava – e continuo admirando -, apertar sua mão e agradecer por tudo o que ele me proporcionou e me fez. É verdade que muito do que seria dito verbalmente eu já havia dito nas cartas, mas seria diferente. Pessoalmente talvez até as palavras me faltassem, mas certamente algumas horas ou minutos conversando dariam conta de demonstrar todo o afeto e carinho que eu sentia – e sinto – por ele.

Dois tios meus moravam no Rio, na época. Ou seja: eu já tinha lugar para ficar. Mas do primeiro livro recebido, em 2003, até aquele início de 2004, fui adiando o planejamento da viagem. Somente depois de receber o segundo livro é que comecei a pensar realmente na ida. Minhas férias deveriam sair no início de 2005, e já comentava aqui em casa minha vontade de ir até lá conhecê-lo. Infelizmente não houve tempo para isso.

Aquilo me deixou numa angústia sem tamanho, felizmente controlada com o passar do tempo. A angústia de querer visitar um lugar ou alguém e, de uma hora para outra, não mais poder: ou porque eu não estaria mais aqui, ou porque a pessoa não estaria mais lá. Isso foi especialmente torturante em 2005, ainda sob o choque da morte de Fernando e – é egoísta de minha parte, eu sei – do consequente naufragar de meus planos de conhecê-lo.

O que talvez mais tenha me deixado triste foi o fato de eu ter tido a chance de ter ido ao Rio de Janeiro antes, meses antes de seu falecimento, e ter preferido gastar o dinheiro que tinha com coisas irrelevantes, achando que teria tempo o bastante para conhecê-lo. Ainda hoje me sinto culpado por não ter viajado quando pude. Mas, enfim, não tem como fazer voltar o tempo. Nem fazer essa espécie de culpa ir embora. É um sentimento que vai morrer comigo.


* Rafael Rodrigues