Cinco anos sem Sabino
Hoje faz cinco anos que Fernando Sabino se foi. Lembro muito bem daquele dia. Eu estava prestes a tomar banho para ir trabalhar, quando recebi a notícia. Quando soube, fiquei desolado. Era como se eu tivesse perdido o chão. Pensei até em faltar aquele dia, mas não havia como. E a explicação? Não havia justificativa, não havia como faltar.
Procurei alguma coisa para amarrar no braço, como demonstração de luto, como fazem os jogadores de futebol em situações semelhantes. Não achei e, depois pensei melhor, nem havia necessidade: minha farda era toda preta (eu trabalhava na C&A).
Poucos meses antes eu enviara uma carta a Fernando. A segunda. Como resposta a ambas, recebi um livro com uma pequena dedicatória (a segunda é do dia 10 de março de 2004.) Desde quando havia recebido o primeiro livro, com uma felicidade que não tenho como expressar, pensei em fazer uma visita a Sabino. Conhecer o escritor e o homem que eu tanto admirava – e continuo admirando -, apertar sua mão e agradecer por tudo o que ele me proporcionou e me fez. É verdade que muito do que seria dito verbalmente eu já havia dito nas cartas, mas seria diferente. Pessoalmente talvez até as palavras me faltassem, mas certamente algumas horas ou minutos conversando dariam conta de demonstrar todo o afeto e carinho que eu sentia – e sinto – por ele.
Dois tios meus moravam no Rio, na época. Ou seja: eu já tinha lugar para ficar. Mas do primeiro livro recebido, em 2003, até aquele início de 2004, fui adiando o planejamento da viagem. Somente depois de receber o segundo livro é que comecei a pensar realmente na ida. Minhas férias deveriam sair no início de 2005, e já comentava aqui em casa minha vontade de ir até lá conhecê-lo. Infelizmente não houve tempo para isso.
Aquilo me deixou numa angústia sem tamanho, felizmente controlada com o passar do tempo. A angústia de querer visitar um lugar ou alguém e, de uma hora para outra, não mais poder: ou porque eu não estaria mais aqui, ou porque a pessoa não estaria mais lá. Isso foi especialmente torturante em 2005, ainda sob o choque da morte de Fernando e – é egoísta de minha parte, eu sei – do consequente naufragar de meus planos de conhecê-lo.
O que talvez mais tenha me deixado triste foi o fato de eu ter tido a chance de ter ido ao Rio de Janeiro antes, meses antes de seu falecimento, e ter preferido gastar o dinheiro que tinha com coisas irrelevantes, achando que teria tempo o bastante para conhecê-lo. Ainda hoje me sinto culpado por não ter viajado quando pude. Mas, enfim, não tem como fazer voltar o tempo. Nem fazer essa espécie de culpa ir embora. É um sentimento que vai morrer comigo.
* Rafael Rodrigues
2 comments
Caro Rafael,
Mais uma vez você surpreende a todos com essa excelente iniciativa. O melhor da vida é fazer o que se gosta e, principalmente, falar de quem se admira, coisa que você faz com sutileza, desenvoltura e uma maturidade de fazer inveja a muitos decanos…
Abraços,
certas pessoas sao eternas, fernando è uma delas.
abraços!
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