Uma homenagem a Fernando Sabino
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Um depoimento de Zuenir Ventura

* Zuenir Ventura é mineiro de Além Paraíba. Além de escritor, Zuenir é um dos maiores jornalistas brasileiros, sendo autor de obras fundamentais para o melhor entendimento de nossa história recente, como “1968 – O ano que não terminou”, entre outros. O depoimento abaixo foi colhido na Bienal do Livro Bahia deste ano, em Salvador. Gostaria de agradecer publicamente ao Zuenir, que foi extraordinário. Eu não o conhecia, ninguém intermediou nosso contato, e mesmo assim ele nos atendeu com uma atenção incrível, ainda no hotel, antes de sua participação na Bienal. Ele poderia simplesmente não ter respondido ao meu e-mail, mas não: respondeu, se dispôs a conversar conosco e foi de uma gentileza que não tenho como descrever. É necessário também agradecer à Cássia, minha noiva, que vem me apoiando desde muito e sempre, e  que poderia não ter ido comigo a Salvador e ter ficado em casa cuidando de suas obrigações acadêmicas, mas foi comigo e gravou a conversa com o Zuenir. Optei por manter o tom informal da conversa, editando muito pouca coisa, até porque  editar o Zuenir é algo quase impossível de se fazer: ele é mestre não apenas na escrita, mas também na arte de falar. Dito isso, vamos ao que interessa.

Quando o senhor conheceu o Fernando?

Olha, eu conheci o Fernando… primeiro eu conheci nos livros, antes de conhecer pessoalmente. Ele foi um dos escritores importantes da minha vida, sobretudo o livro “O encontro marcado”. “O encontro marcado” é um livro que marcou toda uma geração. Depois o conheci no Rio, não me lembro nem em que circunstância, talvez o entrevistando… Eu fui muito amigo, mais amigo até, no começo, do Hélio Pellegrino, que era um dos quatro cavaleiros do apocalipse, como eles diziam, que era o Fernando Sabino, o Hélio Pellegrino, o Paulo Mendes Campos e o Otto Lara Resende. Eu conheci os quatro, fiquei amigo do Hélio, no começo, do Otto, um pouco, Paulinho é que eu conhecia mais distante – tinha um excelente contato com ele, mas não era, assim, amizade –, e com o Fernando, ultimamente, ficamos realmente muito amigos.

O Hélio, eu fui preso com ele, como você sabe, e ele falava muito dos outros três – e muito do Fernando, claro. Enfim. Quando eu saí, eu me aproximei muito do Fernando, acho que em função até do Hélio, desse convívio com ele na prisão, e aí ficamos muito amigos. Fernando era uma pessoa de uma convivência muito agradável, muito engraçada. Ele tinha aquelas histórias de mineiro, as melhores histórias de mineiro eram dele. Evidentemente ele inventava muitas histórias e apresentava como se fossem histórias recolhidas, mas na verdade eram histórias inventadas por ele. Tem uma do mineiro que eu acho maravilhosa, para definir o mineiro. Pra você ver como o mineiro é tão cauteloso, tão desconfiado… Você chega pro mineiro e diz assim: “vem cá, qual é o seu nome todo?”. Aí o mineiro diz assim: “qual é a parte que você sabe?”. Nem o nome ele confia em dizer! (risos)

O Fernando era assim. Se você convivesse com ele, você ria o tempo todo. E era límpido. Não só escrevia bem, com aquele humor incrível, mas ele pessoalmente era também muito engraçado. Um contador de histórias realmente irresistível.

Ele é um dos melhores cronistas que este país já produziu. E é curioso, porque só como cronista ele teria um lugar na literatura do Brasil, por causa das crônicas dele. Mas esse romance, “O encontro marcado”, é um excelente romance. Um dos melhores romances escritos no Brasil.

O Fernando tinha um olhar para o cotidiano, para as pequenas coisas, sempre com muito humor. Eu digo até que ele, o Fernando, e os cronistas mineiros também, mas sobretudo o Fernando, eles ensinaram a gente, o carioca, a ver – até os cariocas como eu, o mineiro-carioca – ele ensinou o Rio a se ver, a ver as pequenas coisas, os pequenos detalhes… Ele tinha um olhar minucioso. E era curioso, porque ele olhava aquilo e devolvia aquilo de uma maneira saborosa. O Fernando é isso…

Depois meu filho ficou amigo dele. Meu filho ficou muito amigo dele, por entrevista! É engraçado porque desde pequenos os dois, tanto meu filho quanto minha filha, eram leitores dele. Minha filha adorava o Fernando, e ele gostava muito dela. Uma vez o Fernando pegou um ônibus, ele andava muito de ônibus, e foi levar um livro para ela, não sei onde, porque ela estava precisando do livro e tal, e ele foi lá, pessoalmente entregar. Ele tinha essas atenções.

E o Mauro [Ventura, jornalista de “O Globo”], que é jornalista, foi entrevistá-lo, muito comovido, porque conhecia o Fernando de leituras desde pequenininho, e aí ficaram muito amigos, os dois. Ultimamente o grande amigo do Mauro era o Fernando, e o Fernando tinha uma confiança absoluta no Mauro, como jornalista. Fernando era muito ressabiado com a imprensa, ele tinha muito cuidado e tal. E com o Mauro ele se abria, ele tinha a maior confiança… É realmente uma relação muito gostosa essa da família Ventura com o Sabino. E depois fiquei amigo do Bernardo e de uma outra filha do Fernando, a Leonora, no final da vida do Fernando e continuando depois.

Ele é uma pessoa realmente… um daqueles tipos inesquecíveis. Eu frequentemente estou citando o Fernando, esbarrando com histórias, com casos que poderiam ter sido escritos pelo Fernando. Ele tinha esse talento, que é o talento de você ler as histórias do Fernando, os casos do Fernando e você não saber se ele retirou aquilo do cotidiano ou se o cotidiano é que acabou imitando as histórias dele, como aquela definição do mineiro. E outras histórias… Mas esse é o grande talento dele, de retratar com um humor inigualável o dia a dia, os pequenos – aparentemente pequenos – acontecimentos, os insignificantes acontecimentos que no fundo têm muito significado. E esse olhar ele ensinou a nós jornalistas e escritores, a prestar atenção nas pequenas coisas. Nisso ele é realmente insuperável.

O senhor acha que as crônicas dele, o lado cronista dele, ofuscou um pouco a obra romanesca? Porque, por exemplo, “O grande mentecapto” é um livro estupendo, “O menino no espelho” também, e as novelas dele também são muito boas.

É verdade, você tem razão. Eu acho que isso é porque ele era tão bom como cronista, tão conhecido como cronista, que… eu concordo com você. Parece que foi ofuscado o lado romanesco. Eu fiquei falando de “O encontro marcado” porque foi um livro que marcou minha geração, como marcou outras gerações, mas você tem razão, “O grande mentecapto” é um livro extraordinário. Inclusive virou peça, eu vi encenada, vi até com o Fernando uma vez.

Virou filme também – com o Diogo Vilela, se não me engano.

Sim, virou filme, é verdade. Virou peça, com o Marcelo Andrade [diretor de teatro], que é um grande amigo dele, meu amigo também, que fez “O grande mentecapto”… Enfim, é uma obra riquíssima, a obra dele é realmente muito rica. A obra romanesca também, não só o lado cronista. Parece que com o Fernando cronista você esquece que ele tinha outras dimensões, uma dimensão romanesca muito importante, sem dúvida.

3 comments

1 marton olympio { 12.10.09 at 4:58 pm }

Hoje escrevo graças a ele.
Ainda lembro do sentimento novo que foi para mim terminar o Encontro Marcado.
Este Sabino, um tanto ou quanto angustiado, presente tb em A Cidade Vazia, senti falta durante anos.
Ia matando a saudade com uma crônica ou outra.
Dois contos do meu site, são uma homenagem descarada ao estilo dele:
http://martonolympio.blogspot.com/2009/04/unidos-dos-dois-na-sala.html
E este outro:
http://martonolympio.blogspot.com/2009/09/tal-da-portabilidade.html
De uma forma cósmica, sempre aguardo por um coment do mestre. No mínimo dando um toque nos exageros. Ou, dizendo: garoto, vc pode ir longe :)

Parabéns pelo Blog.

2 Selma Barcellos { 12.10.09 at 8:39 pm }

Ufa, brisa boa online. Ventura, jus ao nome, sempre trazendo notícia de blogs que merecem a atenção dos que amam a palavra…
Parabéns pela escolha, Eduardo. Sabino (e o Braga) fazem minhas delícias.
Sucesso!

P.S.: A gentileza de mestre Zu, conheço-a bem.

Selma Barcellos

3 Cássia { 12.10.09 at 10:48 pm }

Tive a honra de conhecer o Zuenir Ventura e escutar esse depoimento de perto. Me comportei como uma aluna que tem muito o que aprender com os ensinamentos do mestre – atenta a todas as palavras. Realmente o Zuenir é de uma gentileza indescritível, sem falar na sua simpatia. Agradeço a Rafael (amor) que me proporcionou esse momento de aprendizado e que a cada dia me apresenta um pouco mais do Fernando Sabino. Sucesso. Apóio desde muito e sempre. Parabéns pelo site.

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