Fernando Sabino, o amigo
* Mauro Ventura, segundo biografia que consta no DizVentura, blog que ele mantém no portal Globo OnLine, é “repórter especial do Segundo Caderno do Globo, onde assina ainda a coluna ‘Dois cafés e a conta’ na Revista O Globo. Filho de Zuenir Ventura, é gente finíssima – como o pai – e nasceu no Rio de Janeiro. Foi um dos grandes amigos de Fernando Sabino durante os últimos anos de vida do escritor mineiro. O texto abaixo é inédito, Mauro Ventura escreveu especialmente para esta homenagem.
Um dia toca o telefone da redação – como vive tocando o telefone da redação. Atendi com a indiferença habitual, imaginando se tratar de um assessor de imprensa, de um leitor ou de alguém solicitando uma informação qualquer. Mas não. Do outro lado da linha estava Fernando Sabino, meu ídolo literário, homem de muitas palavras – na vida particular –, mas de raríssimas declarações – na vida pública. Ele ligava para ver se eu tinha como ajudar um morador de rua que não tinha os dois braços. Havia conversado com o rapaz dias antes, e o encontro deixara-o “comovido de chorar”.
Fernando era assim. Tinha uma frase que gostava de usar: “Quando você tem um problema muito difícil de resolver, comece por resolver o problema dos outros”. Conheci-o em 2001, quando preparava uma capa sobre sua correspondência com Clarice Lispector. Levei tempo tentando entrevistá-lo. Ele se esquivava com a desculpa habitual: “Ah, escreve você, coloca uma palavras bonitas na minha boca…”. Explicava que tudo que tinha a dizer estava em sua obra. Também achava que já tinha dado muitas entrevistas: “Vou ficar me repetindo que nem velhinho gagá?”.
Finalmente consegui falar com ele, graças a muita insistência e à ajuda de um amigo em comum, Marcelo Andrade. A partir dali, tornamo-nos próximos. Quando eu escrevia sobre ele, Fernando retornava com seu exagero e sua generosidade habituais. “Estou de joelhos, esmagado. Você é um esteta. Sofre da proporção do equilíbrio, do bom senso e da harmonia. É a consagração. O texto tem uma delicadeza não açucarada. Fiz uma primeira leitura, com os olhos molhados. Fiz uma segunda leitura, com os olhos enxutos de profissional, e posso dizer: é a coisa mais bonita que já saiu sobre mim”, contou certa vez ao telefone, após uma matéria sobre seus 80 anos.
Uma vez, escreveu-me pedindo autorização para publicar trechos de um texto meu na abertura de seu novo livro, uma “autobiografia não-autorizada”*. Levei um susto e pensei em dizer: “Quando você quer?”. Mas respondi apenas “Claro!”, antes de sair pulando pela casa. Com uma frequência menor do que eu gostaria, falávamos ou almoçávamos – ele gostava de ir ao Alvaro’s, no Leblon. É verdade que depois das críticas que recebeu por “Zélia, uma paixão” restringiu sua vida social. Mas o livro virou uma página menor numa trajetória literária admirável, que teve seu ápice com “O encontro marcado”.
De qualquer maneira, Fernando chateava-se com a fama de recluso. Tinha, explicava, era horror a chatos. Preferia o contato com porteiros, manobristas, mendigos, camelôs – gente comum, tantas vezes transformada em texto. Ao olhar generoso aliava-se um espírito curioso, um humor afiado e um talento extraordinário como cronista. Se nada mais o jornalismo tivesse me dado, bastava-me o privilégio de ter virado amigo de Fernando.
* [Mauro escreveu sobre esta “autobiografia não-autorizada” na edição especial para os 50 anos de “O encontro marcado” do caderno “Prosa&Verso”, do jornal O Globo de 07 de outubro de 2006. O trecho em que ele fala sobre o livro você lê a seguir, e está sendo republicado aqui mediante autorização do autor.]
Sabino deixou prontos cerca de três capítulos do que chamava de “autobiografia não-autorizada por mim mesmo” ou “memórias póstumas antecipadas não autorizadas”. Os originais vão permanecer inéditos, porque em seu testamento ele proíbe qualquer publicação post-mortem. “O que não foi publicado é porque não presta”, justificava.
Em obra inacabada, Eduardo Marciano faz biografia de Sabino
No romance inacabado, ele retoma seu personagem mais famoso, Eduardo Marciano, que agora biografa o próprio Sabino. Num trecho, por exemplo, Marciano diz, a propósito de seu criador: “Prosseguiu, na juventude, com as novelas de ‘A vida real’; na meia-idade, com a sua biografia disfarçada sob meu nome em ‘O encontro marcado’; na maturidade, com a maluquice dele próprio em ‘O grande mentecapto’; na segunda infância, com a criança que gostaria de voltar a ser em ‘O menino no espelho’. Tudo isso entremeado de crônicas, contos e novelas reunidos em livros que lhe asseguram o sustento, pelo menos até hoje.”
Em “O encontro marcado”, Marciano tenta a todo custo realizar seu grande sonho – escrever seu primeiro livro. Não consegue. Sabino, ao contrário, foi bem-sucedido em fazer seu romance de estréia, graças a Marciano. Agora, é como se Marciano finalmente desse o troco e escrevesse sua obra inaugural, à custa de Sabino.
2 comments
Sabino tinha esse lado recluso mesmo. Mas o que leio aqui é bastante interessante e revelador. Saio enriquecida. Parabéns.
Abraços.
Muito bom!
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