Da interrupção, um caminho novo
* João Paulo Cuenca, carioca, é escritor e jornalista, colunista de O Globo e blogueiro do Globo Online. Além de autor dos romances “Corpo presente” e “O dia Mastroianni”, é um dos escritores participantes do projeto literário Amores Expressos, no qual vários autores passam um mês em uma determinada cidade do mundo e, com base nessa experiência, escrevem uma história de amor. JP Cuenca foi para Tóquio, e seu livro é um dos mais aguardados do projeto. O texto abaixo, republicado aqui com autorização do autor, foi publicado originalmente em 16 de outubro de 2004, no Jornal do Brasil.
O que ia fazer ali na hora do recreio, ninguém entendia. Nem os amigos mais próximos, nem as namoradinhas. Muito menos a freira que tomava conta da biblioteca. No início, o garoto era acanhado. Depois, ganhou intimidade com alguns autores que escolhia com curiosidade e sem recomendação. Mesmo podendo levá-los para casa, gastava tempo por ali, adiantando algumas páginas para eleger qual deles leria até o fim. Pelas largas janelas chegava o som longínquo da bagunça dos outros alunos, como se fizessem parte de outra vida.
Não eram só os livros que o atraíam à biblioteca. Ia sempre que estava aborrecido. Querendo ficar só. Podia ser uma paixão platônica por uma colega ou pela professora de matemática. Uma briga com amigos. Outra em casa, onde fazia birra e chorava, dizendo-se independente. E olha que a coisa já tinha sido mais feia. Quando menor, era uma criança de rompantes inacreditáveis. Comum dar com a cabeça na parede. Dizer que ia fugir e não voltar. Perguntava o tempo todo: por que isso, por que aquilo? Dizia que ia casar com a professora. Inventava moda. Brincava sozinho. Criava jogos que ninguém mais entendia. Não teriam como.
Cresceu um pouco, mas a sensação de isolamento continuou, apesar de já cultivar algumas amizades que durariam décadas. Mas, se as férias pareciam um intervalo gigantesco na sua vida, o que dizer de um ano ou dez? Quando pensava que um dia ficaria velho como seus pais, a professora ou a senhora que o observava com ar assoberbado entre os livros, uma onda de sentimentos contraditórios vinha à tona. Planejava ser astronauta, ator, milionário, espião, bombeiro, jogador de futebol e diretor de cinema. Entre as cem vidas que podemos escolher, gostava de pensar que poderia viver todas. Mas, no instante seguinte, recuava mil passos. E então, era como se não pudesse viver nem a sua.
Muitas vezes o desgosto que o levava à biblioteca era maior do que simplesmente orgulho ferido. Algo que atravessava todo o resto e que ele não sabia explicar. Um olhar triste de nostalgia precoce, encarando a fresta de tempo por onde lhe escapava a alma. Até os momentos mais alegres vinham acompanhados de certa melancolia. Nessas horas, via-se em desvantagem em relação ao resto do mundo. Não encontrava cumplicidade em lugar algum. Era um menino de angústias infinitas.
A Irmã Laura tentava lhe podar as leituras. De início, com algum sucesso. Achava que alguns livros o garoto só poderia ler no segundo grau. Implicava com ele. Que estranho era alguém amolar quem só queria ler livros! O que poderia haver de tão importante em um moleque lendo um livro? E principalmente aquele livro, que ela considerava tão impróprio? Eu não tinha mais do que doze anos quando surrupiei “O encontro marcado” da biblioteca do Colégio Sion, no Cosme Velho.
Do Fernando Sabino, já havia lido praticamente tudo, os volumes de crônicas (como muitos, fui apresentado ao Sabino pela série “Para gostar de ler”) e seus outros romances (”O menino no espelho” e “O grande mentecapto”, com destaque). Era seu fã confesso e solitário, entre colegas que não ligavam muito para livros. Essa relação ganhou outras tintas depois que li o ”Encontro”. Sabino, a esta altura amigo íntimo, me deu as palavras que eu ainda não conhecia para definir e explicar a angústia que eu puxava sem saber. Não apenas me deu palavras, mas me acompanhou por anos. Já não me sentia ilhado naquele sentimento. Havia Eduardo Marciano, e havia eu. Que, de forma torta, fui me vendo cada vez mais naquele livro, em cada vez que o relia, em todo ano que o reli.
Quando soube da morte do Fernando, depois da tristeza e de um porre de oito horas, amanheci pensando que nunca havia lhe agradecido. Tímido ou receoso, nunca tentei entrar em contato, nem por fax ou carta. O máximo que fiz foi, alguns meses atrás, lhe enviar uma cópia do meu primeiro romance com uma dedicatória onde eu também me dizia ser um Marciano. Hoje vejo como fui sem graça. Afinal, como agradecer a alguém que lhe deu o norte na vida? Se antes eu pensava em cem caminhos, Sabino me apontou o único possível.
Obrigado, Fernando. Você não me deu um nome, mas me ofereceu uma estrela. Eu acreditei, fui buscá-la. Hoje, continuo essa busca. Preciso continuar, mesmo agora que o mundo ficou pior, sem um Fernando escrevendo crônicas, viajando pelo mundo, cercado de amigos, contando histórias, bebendo uísque, tocando bateria, ouvindo jazz, passeando por Ipanema e não atendendo o telefone. Estamos sempre começando. E é preciso continuar, mesmo sabendo que seremos interrompidos. Estamos sempre começando. Antes do fim, e apesar dele, estamos sempre começando. Fico sem jeito de falar, Fernando, mas nos últimos quinze anos, te amei profundamente. Não apenas como se ama um autor, mas como se ama um amigo, um companheiro de todas as horas. Por tudo, como te agradecer, Fernando?
2 comments
[...] É o título do texto de João Paulo Cuenca que foi republicado no A Falta Que Ele Faz – Uma homenagem a Fernando Sabino. Vão correndo ler! [...]
Delícia de texto. Cuenca tem uma leveza de narrativa que muito me agrada. E viva mestre Sabino. Ainda e sempre.
Fico feliz por poder reacompanhar “A falta…” .
Sucesso!
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