Ofuscado por si mesmo
* Foi publicada, na revista Conhecimento Prático Literatura nº 27, uma matéria minha sobre Fernando Sabino. Aí vão alguns trechos da matéria, que não está disponível na internet. Portanto, se puderem, comprem e divulguem a revista! (Rafael Rodrigues)

Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, Sabino começou a carreira literária muito cedo, aos treze anos de idade, quando teve publicado um conto na revista Argus, da polícia de Minas Gerais. No livro “O tabuleiro de damas”, esboço autobiográfico de Sabino – como ele mesmo costumava dizer –, o escritor mineiro conta que, estimulado por uma irmã, começou a participar do concurso de crônicas de uma revista do Rio de Janeiro, a Carioca. Depois, começou a participar do concurso de contos promovido pela mesma revista, e foi também premiado pelas ficções curtas. Era tão comum ganhar os concursos – que eram semanais – que Sabino passou a “receber o dinheiro adiantado do representante da revista em Belo Horizonte”.
E foi no conto e na crônica que Sabino conquistou mais leitores. Suas crônicas – a maioria delas bem-humoradas e divertidas, mas há também as sérias e críticas – e seus contos fantasiosos, inusitados e engraçados – não há como não falar de “O homem nu”, adaptado duas vezes para o cinema, e de “Macacos me mordam” – têm um alcance muito maior que seus romances e novelas. Mas é inegável que, não obstante a qualidade e a popularidade de seus contos, foi com as crônicas engraçadas, com os casos que só ele conseguia contar (escrever) que o escritor mineiro mais se destacou – até porque foi o gênero que mais praticou durante toda a carreira.
(…)
O primeiro livro publicado de Fernando Sabino foi de contos, “Os grilos não cantam mais”, em 1941, aos dezoito anos de idade. Já o segundo foi uma novela, “A marca”, em 1944, elogiadíssima na época – e ainda hoje. Depois deles vieram “A cidade vazia” (1950, crônicas) e “A vida real” (1952, composto por três novelas). Somente em 1956 é que “O encontro marcado” seria publicado. Daí para a publicação de “O grande mentecapto”, seu segundo romance, se passariam 23 anos. Sendo que o livro teve parte de seu material escrito em 1946. Sabino conta em “O tabuleiro de damas” como tudo aconteceu:
“Num domingo de 1979, mexendo no meu arquivo, encontrei as cinqüenta e poucas páginas que havia escrito sobre Viramundo [protagonista do livro], já amareladas pelo tempo. Tomei-me de brios e entrei num transe tão maluco como os de meu personagem. Comecei a escrever dia e noite sem parar, terminei o livro em dezoito dias, em meio a crises de riso e de choro”.
“O menino no espelho”, o terceiro romance, teve mais sorte e foi publicado em 1982, apenas três anos depois do anterior. Em 2004, alguns meses antes da morte de Fernando Sabino, veio à luz “Os movimentos simulados”, romance que o autor havia escrito em 1946 – um ano produtivo para o autor, percebe-se – e que foi útil durante a realização de “O encontro marcado”, mas que havia sido deixado de lado, guardado em alguma gaveta. Nos últimos anos de sua vida, ao fazer o inventário de sua obra, Sabino reencontrou o livro “perdido” e decidiu publicá-lo, mantendo a linguagem original, “meio rebarbativa, sem escanhoá-la”, diz o autor na nota introdutória do livro, que completa, portanto, o quarteto que forma a obra romanesca de Fernando.
Obra essa que foi ofuscada, justamente, pelas crônicas. Hoje, talvez apenas “O encontro marcado” tenha ainda um grande apelo, que infelizmente parece nem ser mais tão grande assim. Os outros romances, apesar de ainda lidos e comentados, não têm a atenção que merecem. Jorge Amado considerava, por exemplo, “O menino no espelho” como sendo uma obra-prima (em “Navegação de cabotagem”, o escritor baiano revela que é este o livro de Sabino que mais gosta). Nele, Sabino narra sua infância com toques de realismo fantástico, de fábula: ele voa num pedaço de bambu, se torna agente secreto, é campeão mineiro de futebol pelo América – fazendo o gol do título, contra o Atlético –, entre outras façanhas.
Os romances de Fernando Sabino têm características centrais muito marcantes e que de certa forma norteiam toda a sua obra. Em “O encontro marcado”, romance de formação que marcou não apenas uma, mas várias gerações, as crises existenciais de Eduardo Marciano, o protagonista, são o norte do livro; em “O menino no espelho” se destaca a inventividade característica de Sabino, sempre presente nos seus textos, mas que é mais contundente neste; a família e o cotidiano são os temas centrais de “Os movimentos simulados”; mas “O grande mentecapto”, que este ano completa trinta anos de vida, é certamente o romance que mais facilmente pode resumir – se é que isso é possível – a obra de Fernando Sabino: nele encontramos um personagem angustiado, engraçado mas ao mesmo tempo triste, que perambula por várias cidades do estado de Minas Gerais fazendo as maiores trapalhadas e tendo os mais diversos dissabores e sofrimentos.
2 comments
Gostei muito dos trechos, vou comprar a revista pra ler na íntegra.
Muito bom. Como diz Verissimo, escrever é fácil. Difícil é resumir.
Abraços.
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