Ofuscado por si mesmo (1/3)
* No final de dezembro de 2009 foi publicada uma matéria minha sobre Fernando Sabino na revista Conhecimento Prático Literatura. Nos próximos dias essa matéria será reproduzida aqui no blog, dividida em três partes. Aí vai a primeira.
A maioria dos escritores não consegue atuar em apenas um gênero literário. É raro encontrarmos um autor que tenha sido apenas poeta, por exemplo, sem jamais ter se aventurado na prosa. Já alguns chegam ao ponto de quase exagerar na dose, atuando em praticamente todas as áreas possíveis, como fez Nelson Rodrigues, que foi dramaturgo, contista, cronista e romancista – só não foi poeta, ao menos até onde se sabe.
Já Machado de Assis, nosso maior escritor, teve sua faceta de poeta. Machado, aliás, talvez tenha sido o escritor brasileiro mais completo: foi romancista, contista, dramaturgo, poeta, cronista e crítico literário. Sem contar que foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.
Mas tanto Machado quanto Nelson são mais conhecidos pelos gêneros nos quais foram mestres: o primeiro, no romance e no conto; o segundo, no teatro e também no conto. O poeta Machado de Assis e o romancista Nelson Rodrigues são, ainda, um tanto quanto desconhecidos do grande público – e não seria exagero dizer “ignorados”. Ambos foram ofuscados por eles mesmos: suas obras capitais – e aviso ao leitor que este não é um trocadilho com Capitu – fizeram sombra a outras realizações, que podem ser tão geniais quanto aquelas que os consagraram.
Deixando de lado dois nos maiores gênios de nossa literatura, falemos agora de um outro gênio – não, não é exagero: Fernando Sabino, um dos escritores mais “prejudicados” – para não dizer “injustiçados” – pelo próprio brilho.
Nascido em Belo Horizonte, em 12 de outubro de 1923, Sabino começou a carreira literária muito cedo, aos treze anos de idade, quando teve publicado um conto na revista Argus, da polícia de Minas Gerais. No livro “O tabuleiro de damas”, esboço autobiográfico de Sabino – como ele mesmo costumava dizer –, o escritor mineiro conta que, estimulado por uma irmã, começou a participar do concurso de crônicas de uma revista do Rio de Janeiro, a Carioca. Depois, começou a participar do concurso de contos promovido pela mesma revista, e foi também premiado pelas ficções curtas. Era tão comum ganhar os concursos – que eram semanais – que Sabino passou a “receber o dinheiro adiantado do representante da revista em Belo Horizonte”.
E foi no conto e na crônica que Sabino conquistou mais leitores. Suas crônicas – a maioria delas bem-humoradas e divertidas, mas há também as sérias e críticas – e seus contos fantasiosos, inusitados e engraçados – não há como não falar de “O homem nu”, adaptado duas vezes para o cinema, e de “Macacos me mordam” – têm um alcance muito maior que seus romances e novelas. Mas é inegável que, não obstante a qualidade e a popularidade de seus contos, foi com as crônicas engraçadas, com os casos que só ele conseguia contar (escrever) que o escritor mineiro mais se destacou – até porque foi o gênero que mais praticou durante toda a carreira.
Há quem diga que, melhor cronista que Sabino, só Rubem Braga. Para não causar discussão, melhor mesmo fazer como um personagem de uma crônica do próprio Fernando, e dizer que fica resolvido assim o impasse de qual dos dois é o maior cronista brasileiro: resolvemos depois.
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