Ofuscado por si mesmo (2/3)
* No final de dezembro de 2009 foi publicada uma matéria minha sobre Fernando Sabino na revista Conhecimento Prático Literatura. Nos próximos dias essa matéria será reproduzida aqui no blog, dividida em três partes. Aí vai a segunda.
O fato é que Fernando Sabino, além de exímio cronista, foi um grande romancista – e, também, “novelista”. Autor de um dos melhores romances do século passado – e talvez o melhor de sua geração –, “O encontro marcado”, o escritor mineiro escreveu muitas novelas, um gênero com pouca expressão no Brasil. Hoje, quando um escritor publica uma novela, a editora a vende como um romance e os críticos dizem se tratar de um romance. Talvez caiba aqui, então, uma breve tentativa de explicar/definir o que é uma novela. Afinal, de tão pouco praticado, o gênero pode ser estranho ao leitor.
A novela, basicamente, é o gênero que, não apenas por extensão, fica entre o romance e o conto. Se geralmente num romance várias histórias se cruzam, formando apenas uma história longa, e no conto há apenas uma história sendo contada, por mais que personagens de diferentes esferas se encontrem e interajam, resultando numa narrativa curta, a novela é um pouco de cada gênero: não é tão longa quanto o primeiro, nem tão curto quanto o segundo, mas pode reunir várias histórias que se cruzam, não sendo considerada um romance por conta de não ser uma narrativa prolongada e também por não formar um ciclo completo – a história não tem um começo, meio e fim, geralmente a novela é um recorte de um universo maior que poderia ser um romance, se fosse mais desenvolvido.
O primeiro livro publicado de Fernando Sabino foi de contos, “Os grilos não cantam mais”, em 1941, aos dezoito anos de idade. Já o segundo foi uma novela, “A marca”, em 1944, elogiadíssima na época – e ainda hoje. Depois deles vieram “A cidade vazia” (1950, crônicas) e “A vida real” (1952, composto por três novelas). Somente em 1956 é que “O encontro marcado” seria publicado. Daí para a publicação de “O grande mentecapto”, seu segundo romance, se passariam 23 anos. Sendo que o livro teve parte de seu material escrito em 1946. Sabino conta em “O tabuleiro de damas” como tudo aconteceu:
“Num domingo de 1979, mexendo no meu arquivo, encontrei as cinqüenta e poucas páginas que havia escrito sobre Viramundo [protagonista do livro], já amareladas pelo tempo. Tomei-me de brios e entrei num transe tão maluco como os de meu personagem. Comecei a escrever dia e noite sem parar, terminei o livro em dezoito dias, em meio a crises de riso e de choro”.
“O menino no espelho”, o terceiro romance, teve mais sorte e foi publicado em 1982, apenas três anos depois do anterior. Em 2004, alguns meses antes da morte de Fernando Sabino, veio à luz “Os movimentos simulados”, romance que o autor havia escrito em 1946 – um ano produtivo para o autor, percebe-se – e que foi útil durante a realização de “O encontro marcado”, mas que havia sido deixado de lado, guardado em alguma gaveta. Nos últimos anos de sua vida, ao fazer o inventário de sua obra, Sabino reencontrou o livro “perdido” e decidiu publicá-lo, mantendo a linguagem original, “meio rebarbativa, sem escanhoá-la”, diz o autor na nota introdutória do livro, que completa, portanto, o quarteto que forma a obra romanesca de Fernando.
Obra essa que foi ofuscada, justamente, pelas crônicas. Hoje, talvez apenas “O encontro marcado” tenha ainda um grande apelo, que infelizmente parece nem ser mais tão grande assim. Os outros romances, apesar de ainda lidos e comentados, não têm a atenção que merecem. Jorge Amado considerava, por exemplo, “O menino no espelho” como sendo uma obra-prima (em “Navegação de cabotagem”, o escritor baiano revela que é este o livro de Sabino que mais gosta). Nele, Sabino narra sua infância com toques de realismo fantástico, de fábula: ele voa num pedaço de bambu, se torna agente secreto, é campeão mineiro de futebol pelo América – fazendo o gol do título, contra o Atlético –, entre outras façanhas.
Os romances de Fernando Sabino têm características centrais muito marcantes e que de certa forma norteiam toda a sua obra. Em “O encontro marcado”, romance de formação que marcou não apenas uma, mas várias gerações, as crises existenciais de Eduardo Marciano, o protagonista, são o norte do livro; em “O menino no espelho” se destaca a inventividade característica de Sabino, sempre presente nos seus textos, mas que é mais contundente neste; a família e o cotidiano são os temas centrais de “Os movimentos simulados”; mas “O grande mentecapto”, que este ano completa trinta anos de vida, é certamente o romance que mais facilmente pode resumir – se é que isso é possível – a obra de Fernando Sabino: nele encontramos um personagem angustiado, engraçado mas ao mesmo tempo triste, que perambula por várias cidades do estado de Minas Gerais fazendo as maiores trapalhadas e tendo os mais diversos dissabores e sofrimentos.
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